Pajé, pajelança e lágrimas de suor (6° dia)
6° dia - 26/08/2022
A internet voltou a funcionar num dia e no dia seguinte parou novamente: a poda de uma árvore causou o rompimento do cabo de fibra óptica nas imediações da cidade. Eu não esperava mesmo que pudesse contar com uma internet estável e de qualidade porque é algo que ainda está em processo por aqui. Apenas por curiosidade, em média são cobrados 500 reais mensais por uma velocidade de 10 Megabytes de velocidade. Ao menos a luz aqui tem se mostrado estável - geradores a diesel gigantescos abastecem a cidade apesar da abundância solar. Também temos "água branca" na pousada que possui seu próprio poço. Em muitos lugares, mesmo tratada, a água do Rio Negro permanece com uma coloração que foge do transparente.
Prometi no primeiro dia de relatos que me limitaria aos aspectos contemplativos, interpessoais e amenidades. Os dedos se agitam querendo expor uma mistura de impressões que vão da emoção à comoção de forma muito rápida. Eu seria capaz de escrever abundantemente sobre tudo o que estou vendo, sentindo e refletindo e que são frutos dos impactos que as fotos de redes sociais não mostram. Permanecerei fiel e, aqueles que algum dia tiverem a oportunidade de viver a experiência amazônica ou mesmo estarem perto de mim para ouvir as histórias, poderão assim saber um pouco mais daquilo que me causa lágrimas, ora pela emoção da existência, ora pela comoção da resistência. Talvez esteja aí o que me compele a caminhar sob o sol escaldante: as lágrimas se disfarçam com o suor e evitam o constrangimento causado por olhos curiosos que observam o forasteiro que insiste em não caminhar nas poucas sombras.
Só para não deixar no vazio, para os que talvez tenham algum tipo de interesse em se aprofundar nessas questões, deixarei aqui uma reportagem que fala sobre um grande problema aqui na região e que não é exclusividade daqui. No entanto, atentem para a complexidade e as teias e nós que permeiam toda a situação e como é difícil construir caminhos para melhoria da qualidade de vida dessa população, principalmente quando faltam competências, vontade política e sobram preconceitos: São Gabriel e seus demônios.
| Amanhecer na Pousada Bawary. |
No decorrer do evento fui chamado por um dos professores de física, o Rivali, que eu já havia conhecido em outra ocasião e que se dispôs a conversar bastante sobre a dinâmica de trabalho naquela instituição.
Também aproveitei e fui reencontrar o professor Jackson com quem combinei alguns encontros no final de semana. Ele também me apresentou seus canais na internet, os quais compartilho aqui com muito gosto: Humor Quântico (Instagram e YouTube).
Conforme foi finalizando seus compromissos, Eurides me ofereceu carona de volta até a pousada. No caminho, me levou para conhecer um Pajé, com quem havia se consultado algumas vezes e sol longo dos últimos 7 anos foi estabelecendo uma lenta relação de confiança.
Não tirei fotos da ocasião assim como de muitas outras. Por tudo o que já foi dito até aqui, presumo que seja compreensível. Para essas ocasiões espero conseguir uma narrativa precisa para que possam ao imaginar os acontecimentos.
Entramos numa rua secundária relativamente próxima da pousada e encontramos na frente de uma casa de alvenaria, o Sr. Mário, Pajé da etnia Tuyuka, sua esposa, Dona Catarina, da etnia Tukano, um casal de Yanomamis com uma filha de cerca de 7 meses e um rapaz que confeccionava instrumentos de sopro para o evento que se aproximava. Fui apresentado e enquanto conversávamos, o pajé soprava levemente a boca de uma garrafa com água. Entre um sopro e outro, trocava ideias conosco. Entendi que ele estava benzendo (na nossa linguagem) a água que depois de algum tempo foi entregue à mãe da criança com umas instruções ditas ao pé do ouvido.
Eurides perguntou se havia dindin (sacolé para o pessoal de fora) e uma das netas do Sr. Mário foi prontamente buscar. O sabor: buriti. Do que foi possível observar, a casa parecia ter poucos móveis, o que era relativamente normal e ali ficamos por um tempo. Após a água da garrafa, foi a vez de uma planta receber o sopro do pajé: parecia uma flor mas era totalmente verde, como se fosse um brócolis de baixa densidade (não acredito que disse isso). A sensibilidade do Eurides foi o bastante para que ele nos mobilizasse nas despedidas porque coisas da pajelança ainda seriam feitas e a nossa presença ali não parecia ser conveniente. Nos despedimos com grande afeto, levando mais um dindin (sabor côco) e fui deixado na pousada.
Naquela noite não consegui assistir a aula do curso do Cimi por causa da falta de internet e me limitei a fazer um lanche na Dona Lourdes, aquela senhora que serve refeições aqui nas proximidades da pousada. Muitas fotos a caminho nas próximas postagens.
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