São Gabriel da Cachoeira e as primeiras impressões (4° dia)
4° dia - 24/08/2022
Dormir muito cedo para quem dorme pouco, implica em acordar ainda mais cedo. Colocando uma hora de diferença por conta do fuso e já estava eu com os olhos arregalados por volta das 3 da manhã. A cidade estava sem internet desde a quinta-feira anterior por conta do rompimento do cabo de fibra óptica no meio do caminho da Manaus para cá. A qualidade da internet móvel não ajudava. Esse episódio atrapalha bastante a postagem atualizada do blog. Enrolei até o dia clarear.
Só havia mais um hóspede, um rapaz que parecia estar a trabalho na cidade e que chegou no mesmo voo que eu. O café da manhã compartilhado com os donos da pousada foi um verdadeiro momento de aula, de ensinamentos orais na moda indígena. Tanto Giovana quanto Auri trabalham com a saúde indígena: ela é assistente social e ele coordenador de todo o trabalho, função que exerce juntando 30 anos de experiência acumulada como militar de exército e que conhece muito da realidade local. Tive o privilégio de acessar informações que não lemos em qualquer meio de divulgação e ter uma noção da complexidade que é trabalhar com as comunidades, desde as locais até amais afastadas, integradas ou de pouco contato.
| Calor logo cedo apesar do microclima ameno no terreno da pousada. |
O café, servido numa mesa comprida com bancos igualmente grandes, proporciona integração de forma natural, um encontro de trocas e saberes (eu recebendo muito mais do que doando). Regado pelas frutas e costumes locais: tapioca, banana frita, cará cozido, algum bolo típico a cada dia, frutas para consumo ou suco: cupuaçu, camu camu (riquíssimo em vitamina C), cubiu, maracujá do mato (dulcíssimo) e outros tantos sabores amazônicos.
Esqueci de comentar que antes mesmo de chegar na cidade fiquei sabendo que durante minha estada aconteceria o Festribal 2022 e que há dois anos não acontecia. É uma manifestação local e pelo que entendi, além de shows (nem tão típicos) acontecem competições de caráter cultural entre diferentes denominações (Tukano, Baniwa, etc.). As referências ao festival podem ser facilmente encontradas na internet. O período de realização em este ano é de 31/08 a 03/09 e pelo que entendi a cidade fica bastante agitada.
A pousada fica a cerca de 2 km do centro de SGC. No final da manhã resolvi caminhar até a beira (margem do rio) e tentar reconhecer os principais locais. Também seria importante encontrar um lugar para almoçar. Como em muitas cidades por aqui, além de lugares específicos que servem comida, muitos utilizam suas casas (varandas de entrada ou mesmo a calçada) como restaurantes ou lanchonetes informais. Alguns apenas no período da noite como uma segunda fonte de renda.
| Cheguei a pensar que fosse uma filial de uma famosa vendedora de açaí do Rio de Janeiro. |
Diferente de outras regiões da Amazônia, o revelo de SGC torna as andanças bem mais sofridas sob o sol ardente com a alta umidade do ar. Várias colinas e algumas íngremes e sem proteção para o sol: não há sombras de árvores nas margens das ruas. Orgulhoso sob o sol escaldante prossegui. A sensação de se sentir estrangeiro no país em que se vive é muito forte aqui. Conforme ia cruzando com as pessoas na rua, as trocas de olhares eram diversas: apenas olhares, olhares que se desviavam, outros que se cumprimentavam. Com o tempo fui percebendo também diferenças sutis entre os traços trazidos por aquelas pessoas: afinal eram 23 etnias além de todas as miscigenações.
Chegando ao centro da cidade fui reconhecendo alguns lugares do dia anterior e descobrindo outros: feira de agricultores indígenas, bancos, escolas, algo que parecia o mercado municipal, o local de realização do Festribal sendo preparado e diferentes organizações indígenas como a FOIRN (Federação da Organizações Indígenas do Rio Negro).
| Por mais de uma vez vi pessoas andando com macacos de "estimação". |
Finalmente cheguei na praia que começava a aumentar de tamanho em função da vazante. A paisagem realmente é deslumbrante. A iminente combustão espontânea do meu corpo era inibida pelo volume de suor que me encharcava.
| A névoa úmida ocultava algumas montanhas, como a Bela Adormecida, cuja a forma lembra uma moça deitada. |
O relevo realmente destoa quando comparado com outras paisagens amazônicas. Há muitas pedras ao longo do rio formando corredeiras, morros constituídos basicamente de rochas e vistas deslumbrantes.
| Vista do mirante. |
| Uma panorâmica do mirante. |
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