Seguidores

São Gabriel da Cachoeira - AM: a última fronteira (3° dia)

3° dia - 23/08/2022

Cheguei com a devida antecedência no aeroporto de Manaus e isso me custou não tomar o café da manhã no hotel, incluso na diária, e assim tomei o café da manhã regional enquanto aguardava o embarque e obviamente o preço pago foi o de aeroporto.

Me acomodei na rabeira do avião como sempre (Será que é por isso que treme tanto?) e tive a felicidade de viajar sem vizinhos. Uma turbulência mínima na partida e outra na chegada e tudo correu bem apesar da voz do piloto parecer jovem demais para o meu gosto.

Vista do Rio Negro minutos antes do pouso.

Diferente do que já fiz em outras narrativas, serei bastante comedido nas questões mais profundas de São Gabriel da Cachoeira e, consequentemente da Amazônia. Vou me limitar aos momentos contemplativos, relações interpessoais e reflexões sobre a minha existência.

As questões aqui são complexas e muitas vezes distorcidas por conta da desinformação dos que são de fora, preconceito, descaso e até mesmo sabotagem. São 23 etnias indígenas e, além da língua portuguesa, são reconhecidos os idiomas Tukano, Baniwa, Nheengatu e, mais recentemente, o Yanomami. O percentual da população indígena chega a 80% e, diferente aqui sou eu.

Há quem queira questionar a legitimidade da identidade indígena daqueles que estão na vida urbana ou se utilizam dos recursos do homem branco para a comunicação, estudo, vestimenta e outras tantas coisas mais. É realmente paradoxal que longínquos descendentes de imigrantes achem lindo a busca pela cidadania italiana, portuguesa ou outras mais, mesmo que não tenham a menor noção da cultura ancestral: há aqueles que só querem passaporte e legitimidade num possível movimento migratório para não se tornarem trabalhadores ilegais. No entanto, um indígena que faz uso de um celular para denunciar ataques genocidas que visam o extermínio das comunidades, é qualificado como falso indígena por essas mesmas pessoas.

Boa parte dessa população poderia ter sido devastada (mais do que já foi até os dias de hoje) durante a pandemia do Covid-19 por conta das medidas "políticas" do atual governo federal. Não fossem os esforços de destemidos funcionários de alguns órgãos que desafiaram a política genocida e autorizaram a entrada de Ongs para suprir a falta de oxigênio em comunidades isoladas, o desastre teria sido indescritível.

Além das ações externas negativas, existe um altíssimo índice de suicídio e alcoolismo (que implica em muitas mortes por afogamento) que para quem está de fora, são vistos como problemas e não como consequências graves de situações muito mais profundas.

A violência também vem daqueles que deveriam proteger. Num passado não muito distante, um político e alguns "cidadãos de bem" foram presos por negociarem a virgindade de meninas indígenas com 11 anos de idade para algumas excrescências que se dispunham a pagar. As aberrações humanas já foram devidamente soltas e andam pelas ruas da cidade como se nada tivesse acontecido.

São Gabriel da Cachoeira (doravante SGC) é um símbolo de resistência e é causa que deveria sensibilizar todos nós. Estou certo que temos aquele amigo imbecil, idiota funcional que acredita que não tem nada com isso ou que a floresta é grande demais e os indígenas estariam atrapalhando o progresso. Só estando aqui para ver o significado do olhar desesperançoso de quem tudo foi tirado ou de uma imensa cicatriz na mata e que rapidamente fica estéril. A boiada, a soja, o garimpo, incêndios e incontáveis agressões ao meio ambiente estão devastando tudo de forma rápida e implacável. Isso é paradoxal porque a fonte se esgotará e não temos um Planeta B. O que os predadores humanos sabem que não sabemos? Dentre os inúmeras influências da Amazônia em nosso cotidiano, destaco para ilustrar, a importância dos RIOS VOADORES (assistam por favor) que são grandes responsáveis pela regulação do clima em lugares significativamente distantes da Amazônia.

Tudo isso e além daria enredo mais do que atualizado para As veias abertas da América Latina de Eduardo Galeano. Aliás, embora muitíssimo tardia, é minha leitura do momento.


Eu não cheguei totalmente às cegas em SGC porque já havia feito dois contatos prévios: com o professor Eurides Teixeira Jr. (Química), do Ifam, Instituto Federal do Amazonas - Campus SGC, instituição irmã do Cefet/RJ onde trabalho e, com a professora Solange Nascimento, atual diretora da UEA em SGC, que tive a imensa satisfação de conhecer quando eu estava em Tefé-AM. O Eurides foi um contato compartilhado pelo amigo e também professor de Química do Cefet/RJ, Cristiano Moura. Assim, eu tinha ao menos alguns referenciais.

Ao sair do avião não tive muito o que fazer, apenas com a bagagem de mão me dirigi ao pequeno saguão onde passageiros que seguiriam para Manaus aguardavam ansiosos. Não é raro o avião sobrevoar a cidade e retornar para Manaus por falta de condições de pouso: explicada a grande ansiedade daqueles que vão embarcar. Tal fato ocorreu 15 dias antes da minha chegada. O mesmo acontece em Tefé e em outras cidades da região. Felizmente nunca passei por isso mas, por alguma razão a Azul, companhia aérea, modificou minha volta do dia 1° de setembro para o dia 3. Tive que fazer alguns malabarismos para reconciliar com a ida para Tefé na etapa seguinte da viagem.

Diferente de boa parte dos passageiros, não havia quem estivesse me aguardando no desembarque. O Eurides talvez pudesse me buscar mas pelo jeito não aconteceu. A cidade é servida por táxis que fazem papel de transporte coletivo e há também um contigente de mototáxis mas não os vi no aeroporto. A distância até a cidade é considerável: cerca de 13 km e eu realmente precisava de um transporte. Consegui me articular com um taxista que foi generoso em me cobrar a metade do valor porque já tinha fechado a sua cota e eu seria um extra. Eu tinha que me resolver mesmo porque não há sinal de celular no aeroporto e a cidade estava sem internet desde a quinta-feira anterior por conta do rompimento do cabo de fibra óptica no meio do trecho entre Manaus e SGC. A internet de celular também não era grande coisa.

Cheguei na Pousada Bawary e fui recepcionado pela proprietária, Giovana, com quem eu já havia conversado durante o processo de reserva. Ela é da etnia Baré e seu marido, Auri, da etnia Guarani do sul do Brasil. Eles são auxiliados por uma funcionária, a Lu, da etnia Tukano. Em muitos momentos farei referência às etnias por me parecer algo importante por aqui. Fui recepcionado com suco de cupuaçu e confortavelmente acomodado: chuveiro quente!!! O padrão nesta região é o banho frio por razões óbvias. Definitivamente não me acostumo, por mais quente que seja o clima. Um brinde extra no banheiro: ducha higiênica (os deuses estão me ajudando).

A pousada fica a pouco mais de 2 km do centro da cidade e da orla do rio cujas praias já começam a ressurgir por conta do período da vazante que se inicia. A distância não seria um problema por conta do meu gosto pelas caminhadas: tudo fica mais difícil sob um sol que gera temperaturas acima de 30° e umidade relativa superior a 90%. O capricho, cuidado e bom gosto dos ambientes na pousada superam qualquer expectativa. São 5 suítes numa casa central, um bangalô e mais 3 suítes independentes na residência do casal de proprietários. Tudo num terreno amplo e imerso numa variedade de árvores que mal conseguimos enxergar o céu aberto.

Um ocaso muito discreto um pouco acima do bangalô.

Há muitas árvores frutíferas também, muitos pés de açaí e cupuaçu e uma profusão de pássaros que são atraídos pelos frutos e ambientes. Muitas vezes é difícil identificar quantas espécies diferentes estão transitando pelo local.

Não queiram imaginar uma cupuaçuzada na cabeça!

Foi chegando a hora do almoço e o Eurides me convidou para acompanhá-lo no e que não poderia ser demorado porque ele daria aula às 13:30. Ele me buscou na pousada e foi quando nos conhecemos. Nos dirigimos a um restaurante que parecia mais um rancho de quartel por conta da quantidade de militares fardados. Cena muito comum em cidades de fronteira ou estratégicas e que congregam as três forças armadas. Os militares ajudam também a movimentar a economia local.

Depois do almoço demos um breve passeio pelo centro comercial da cidade e ele me convidou para assistir sua aula porque logo depois estaria livre. Achei uma excelente oportunidade de interação e prontamente aceitei o convite. Seguimos então para o Ifam, que assim como a UEA, fica no caminho do aeroporto e relativamente próximo ao Centro.

Eurides é muito articulado e está em SGC desde 2015 com um período de afastamento para o doutorado. É natural de Itumbiara-GO e me pareceu perfeitamente adaptado e convicto com a Amazônia. Ao entrarmos no Ifam ele me fez uma pergunta muito tocante: se poderia me apresentar como amigo. Fiquei muito sensibilizado e achei muito significativo e agradeci a ele se assim o fizesse. Rapidamente conheci várias pessoas no caminho até a sala de aula: impressionante as conexões com gente conhecida, como a orientadora da professora da área de arquitetura que é uma colega de trabalho minha lá em Petrópolis e por aí vai.

Com o professor Eurides na entrada do Ifam

Fomos para a sala de aula, seriam dois tempos seguidos de 50 min, fui rapidamente apresentado e cumprimentado por olhares curiosos de cerca de 15 alunos. A dinâmica da aula não foi muito diferente do que estamos acostumados a ver no Sudeste a não ser pelo fato de que o Eurides conhecia, com poucos meses de aula, os nomes de todos os alunos, as diferentes etnias presentes naquele ambiente e, durante a atividade que transcorreu após a apresentação do conteúdo, atendeu individualmente cada aluno da turma durante o processo. 

Eurides: um verdadeiro mestre maestro.

Curioso foi ver uma aluna questionar a autenticidade do afeto do professor com a turma: ela dizia que o professor os enganava por manifestar atitudes de carinho e apreço com aquele grupo. Isso nos faz pensar sobre os motivos que levavam a pensamentos como aquele.

Terminada a aula, conheci algumas dependências do Ifam, encontrei mais algumas pessoas e, na hora de partirmos, demos uma volta pelo campus que é invejavelmente grande, bem equipado e conta até com algumas moradias para professores e alunos. As moradias dos alunos foi desativada durante a pandemia e acolhia principalmente os Yanomamis que são de muito longe e, desde então, juntamente com outros ambientes escolares segue sofrendo com a atual política de desmonte do ensino público de qualidade. Apesar da forte presença de numerosas etnias, o Ifam de SGC não é uma escola indígena. Existem projetos que vão ao encontro das diversas culturas, tentam fazer as conexões necessárias mas, o perfil é o de uma escola regular.

Dali seguimos para mais um passeio pela cidade, fomos beber um suco e eu finalmente tive a minha típica, maravilhosa e deliciosa tapioca caboquinha com queijo coalho, banana e tucumã.

Um capricho dos deuses: acompanhada por um suco de taperebá.

Antes de me deixar de volta na pousada, Eurides me mostrou onde morava. Nos fundos da igreja matriz os religiosos tinham alguns apartamentos alugáveis a preços acessíveis, com bom espaço e luz incluída (aqui é muito cara).

Fui deixado na pousada no final da tarde e pouco me restou a fazer depois de uma maratona de acontecimentos. Pelo que me lembro, depois de organizar melhor as coisas no quarto, tomar um banho quente e ler um pouco, apaguei por volta das 8 da noite.

Comentários

Postagens mais visitadas