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Um varal de bodes e o retorno à Teresina (9º dia)

9º dia - 06/04/2022

Durmo pouco. Já nem sei o motivo. Acordei antes das 3 e me coloquei a finalizar de uma vez por todas o resíduo de trabalho que faltava para realmente poder existir em plenitude. Finalizei precisamente às 4 h 30 min. Impossível retornar para a cama e tratei de finalizar o diário do dia anterior para postar e tentar manter a fidelidade dos relatos diários.


Um pouco depois das 5 da manhã o Padre Alexandre acordou e nos pusemos na organização para a saída. Naquele hotel deserto com apenas dois grupos de hóspedes e sem funcionários durante a noite (completamente fora de temporada), o combinado foi deixar a chave na porta pelo lado de dentro. Saímos às 6 da manhã, praticamente no mesmo horário de nossa vinda e com uma pequena diferença: eu estaria no volante. A chegada em Teresina se daria com quase uma hora a menos em relação ao tempo da vinda. Eu corro muito? Claro que não! Apenas dirijo enquanto dirijo. Não faço como o meu amigo que precisa diminuir ou praticamente parar enquanto tira as mãos do volante para gesticular nas falas empolgantes!


Retas imensas cercadas de Sansão do Campo.


Um trecho considerável da viajem é constituído por retas a perder de vista onde os Sansões do Campo cercam as propriedades nas margens da rodovia. Era período de floração e o cheiro chegava até o carro. Uma das poucas coisas que consegui ensinar ao Padre Alexandre que desconhecia a tal planta.


Tirando o fato de que não vim sendo cutucado a viagem inteira (acho que ele conseguiu se conter porque eu estava na direção) as conversas foram, como sempre, mais do que enriquecedoras. Aprendi mais sobre a cultura da região, a formação do Padre Alexandre, suas perspectivas e as confusões que arruma por conta de seus pontos de vista fora da caixinha. Também aprendi que missiologia é a parte da igreja voltada para o estudo missionário e não de missas! Não, não tenho vergonha de expor minha ignorância.


Paramos em Piracuruca num lugar bem agradável na beira da estrada para o café da manhã, o Café do Rancho, onde poderíamos ter experimentado na ida mas o padre perdeu a entrada porque não estava olhando enquanto gesticulava em suas falas veementes, para variar. O lugar é muito bem cuidado e delicado para os padrões de paradas em beira de estrada. E claro, café fresco, muito café de várias maneiras e formas de fazer. Há muito capricho na apresentação daquilo que é servido, os preços são compatíveis e o malandragem aqui, carioca, esperto com décadas de praia, pediu logo um pastel com caldo de cana. Eu só não sabia que viria um balde de caldo de cana. Claro que não funcionou e eu bebi tudo e tive que ir devolvendo o líquido em algumas paradas não programadas porque não há bexiga que aguente.


Já passando da metade da viagem, chegando em Campo Maior, registrei uma imagem comum e que contribuiu para o título dessa postagem. Definitivamente é algo que pode chocar culturalmente os que não são daqui e absolutamente inevitável. Não vou entrar em nenhuma discussão a respeito mas apenas compartilhar o que vi e que será visto por qualquer um que atravesse a cidade, assim como em outros tantos lugares. São varais de carne de sol de origem caprina (bode mesmo) que ficam expostos para a comercialização.


Deixarei a legenda por sua conta.

Eu já tinha visto na ida mas não tinha fotografado e por isso não comentei em relatos anteriores. Saindo dali, daquele centro comercial, somos presenteados com a vista do belíssimo Açude Grande (grande mesmo) margeado pela rodovia e pela Alameda Arco-Verde ao fundo.


Açude Grande e a carnaúba fazendo sua presença.

Chegamos em Teresina um pouco depois das 11 da manhã e nos dirigimos ao restaurante de um supermercado para almoçar. Espaçoso, ar condicionado e self-service, um bálsamo para amenizar aquele calor indescritível. Vários já me disseram que eu estava com sorte porque o calor mesmo acontece do meio do ano em diante. Nem quero imaginar. A partir dali entreguei a direção ao Padre Alexandre que já no estacionamento, ao retirar o carro da cobertura, sob aquele sol de meio-dia e pouco em plena Teresina, simplesmente interrompe a manobra para poder gesticular na fala daquele momento. Não durou mais do que uns 30 segundos, um daqueles bem longos.


No caminho para casa, ele voltou a um assunto recorrente: como a cidade seguia normal diante da greve de ônibus. Diferente dos tumultos que vemos nos grandes centros urbanos quando um evento desses acontece, de fato, aqui tudo segue normalmente. Os terminais de ônibus seguem completamente vazios.


Os ônibus têm pontos diferenciado no centro das vias principais.


No fundo da foto aparece a cobertura de um desses pontos que lembram o BRT no Rio de Janeiro. O transporte coletivo está sendo suprido pelos ligeirinhos (lotação irregular) e vans. Realmente parece que a cidade consegue seguir sem os ônibus. Importante deixar claro que estou expressando minha opinião diante de uma visão recortada e sem ter acessado o centro da cidade.


Falando em centro da cidade, parece que finalmente irei conhecê-lo na quinta-feira porque o padre estará liberado de uns compromissos e se ofereceu gentilmente para me acompanhar. Claro que será uma incursão repleta de comentários e reflexões antropológicas (ele pode) e que obviamente enriquecerão o meu olhar.


Impossível sair no período da tarde sob aquele sol. Aproveitei para tentar cochilar um pouco, em seguida, já um pouco atrasado, atualizei minhas planilhas e agendei os inúmeros pagamentos de contas de início de mês. Eu estaria por minha conta no final do dia porque os dois padres tinham seus compromissos paroquiais.


Aproveitei e voltei no mesmo lugar onde fomos no último sábado, o Espaço Família, que fica a duas quadras da casa. Era tudo o que eu precisava.


O lugar é inacreditável e parece que estamos em casa mesmo.


Uma cerveja e o prosseguimento na leitura do meu livro do momento, O Segundo Sexo, da maravilhosa e apaixonante existencialista, Simone de Beauvoir. Leio pouco mas sempre leio dois ou três livros ao mesmo tempo. Será um problema? O sono e o cansaço eram tão grandes por causa do calor e da viagem que, sob aquele céu limpo e deslumbrante de estrelas, caminhei dois "longos" quarteirões até chegar, tomar um banho e desmaiar.



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