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Um dia morno em Teresina é possível (11º dia)

11º dia - 08/04/2022

Descobri que há uma situação nessa época do ano na qual posso prever a reação do piauiense quando reclamamos do calor: "Você tem que ver em setembro..." No começo de uma noite em pleno mês de abril a 27 °C, sensação térmica de 31 °C e umidade de 93%, galera reclamando de frio. Nem seio que dizer. Ainda assim, independente do calor, sexta-feira morna por aqui. Sem programação ou demandas, me organizei para não sair mesmo e, como sempre, organizar algumas coisas. Após a conversa do café da manhã fui escrever, pesquisar mais algumas coisas sobre Nova Russas-CE, para onde eu iria no domingo e vou partilhar aqui uma visão que construí com ajuda do Padre Alexandre. Antes porém, preciso divulgar uma lição que aprendi na viagem para Parnaíba ao pararmos numa padaria em Campo Maior para o café da manhã. Não divulguei antes porque esqueci mesmo e, revisitando as fotos, encontrei a pérola a seguir:

Apesar de paradoxal ao normalizar "crime", entende-se o recado.


Não sei se minha percepção sobre a palavra crime foi correta mas a mensagem ficou recorrente ao entrar em banheiros públicos e notar a falta de cuidado de outros usuários. Vontade de panfletar por aí.


Como passei o dia inteiro sem sair, tenho pouco a relatar. No entanto, há uma curiosidade apontada sobre as invasões de terra aqui na região. Boa parte dos habitantes desse bairro foi deslocada das margens do rio para uma ocupação ordenada e organizada, constituindo-se assim uma estrutura relativamente organizada incluindo serviços públicos diversos. O que acontece agora é que novas incursões estão sendo feitas na antiga região de invasão! Talvez até por antigos invasores que depois venderão os imóveis pois estes já possuem suas respectivas propriedades na ocupação atual. Há uma metodologia interessante: uma pequena casa de taipa (ou pau-a-pique) é construída no local desejado e deixada lá, sendo habitada eventualmente ou não.

Aos poucos vão se misturando casas de taipa e alvenaria.
Clicando na foto, ela é ampliada.


Na medida em que não haja reclame, as casas vão ficando, se modificando e logo um bairro estará constituído numa área de grandes alagamentos e que já foi desocupada no passado. Ao fundo, não é possível ver, fica o Maranhão do outro lado das margens do rio Parnaíba. Que fique claro que não estou fazendo qualquer tipo de referência a aspectos políticos, fundiários ou o que for. É apenas a observação de um comportamento cujas razões estão fundamentadas num complexo emaranhado de fatos geradores.

Mais interessante ainda é quando, em volta da casa de taipa imperturbável, um muro de alvenaria é construído aos olhos de todos e assim, num futuro não muito distante, ali estará edificada uma casa.
Aqui jaz uma casa de taipa que ao pó voltará.

Eu já comentei numa outra postagem sobre a cor da terra por aqui e da arte em barro. Os tijolos aqui são tão puxados para o vermelho, que muitas casas não usam emboço e fica tudo aparente. Num primeiro momento parecem obras inacabadas mas são realmente opções e quando o assentamento dos tijolos são feitos com o mais cuidado, ficam realmente muito bonitos.
O muro, relativamente antigo, tem o seu acabamento em tijolos aparentes.


Também fui convocado para ajudar no almoço e me mobilizei a fazer um escondidinho. Janaína deu conta do arroz e também me ajudou na logística. Não podia faltar a cenoura ralada com alho, azeite, sal e vinagre. Iguaria que desde que fiz a primeira vez para o Padre Alexandre nos tempos amazônicos, ele pede que eu repita. Nada demais: um pequeno dente de alho para cada cenoura e os demais temperos a gosto. Pode-se servir sozinho ou completando a salada.


Conversamos mais durante o almoço sobre a necessidade que ele tinha de sistematizar na forma escrita os encontros virtuais de preparação para um evento missiológico no próximo mês de agosto em Osasco-SP com os vicentinos. Nesta semana ele fez dois encontros remotos de preparação. São muitos conhecimentos que transbordam de sua experiência como padre missionário e que o pessoal mais jovem desconhece.


Recebi de última hora uma aviso de que nesta sexta haveria seminário do grupo de Ensino de Física da UFRJ, do qual participo. Boas conversas como sempre e tive a tarde ocupada até umas 16 h. Dali me habilitei a fazer um café fresco uma vez que não teria menor chance de conseguir algum que não fosse feito pela manhã na padaria do bairro. Combinei uma ida ao Espaço Família com o Padre Alexandre para finalizar o dia, depois que ele voltasse dos compromisso paroquiais.

Outra notícia de última hora que trouxe grande alegria ao meu dia e que diante dos paradigmas atuais, tomou lugar apoteótico por conta de tantos distanciamentos sociais: as aulas recomeçariam no dia 18 como previsto, no formato remoto. No entanto, uma semana depois, retornaríamos ao modo presencial depois de mais de 2 anos! Quando estávamos quase retomando o modo presencial, o Cefet/RJ Petrópolis foi tomado duas vezes pelas enchentes dos dia 15 de fevereiro e 20 de março. Uma entre tantas tragédias que tomaram conta da cidade no início de 2022. Fiquei tão abestado com a boa notícia que fiquei pensando que nem teria roupas próprias (metáfora) para a ocasião! Como seria encontrar alunos que conhecem parte da intimidade da minha casa (sempre estive com a câmera aberta durante as aulas) e eu, por outro lado, que em muitos casos só visualizei ícones ou avatares, não teria como reconhecer uma boa parte ao passar pelos corredores. Finalmente o vislumbre de um pouco de normalidade na minha rotina de trabalho e, principalmente, a arte do encontro.

Finalizando o dia na confraternização com o Padre Alexandre, ele assinalou que poderíamos explorar outras partes da região central de Teresina no sábado pela manhã. E assim, um sábado morno que terminou mais aquecido do que começou e me fez ir dormir pensando no retorno às aulas presenciais como um evento de gala que estava na iminência de acontecer. E eu penso que é de gala mesmo.

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