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Também temos greve de ônibus (4º dia)

4º dia - 01/04/2022

Há um fato absolutamente relevante e que está me deixando refém de saídas apenas nas cercanias e caronas dos padres: desde o dia 20 de março os ônibus estão em greve em Teresina e há cerca de 3 dias os motoristas de aplicativos também resolveram parar (ao menos em parte). Os preços dispararam.


Depois de uma manhã em espera, fazendo leituras enquanto o Padre Alexandre fazia Pilates e musculação, finalmente nos organizamos para o almoço. O diálogo inter-religioso parece funcionar de forma seletiva para uma parte significativa do clero (e dos leigos também) e fico feliz por não fazer parte daquele grupo que acha que "alguns são mais iguais do que outros".


Ao chegarmos um pouco depois do meio-dia fomos informados de que o mestre (como o Sr. Luiz era tratado) ainda levaria um tempo para chegar pois estava numa consulta médica. Pude examinar com mais cuidado o local e percebi pessoas diferentes em vários aspectos e que pareciam habitar aquele lugar, quase que como uma comunidade. A cozinha parecia servir a todos: mesas, espaços e tudo dimensionado para dar conta de uma quantidade significativa de gente.


O almoço que já nos aguardava.

Fomos avisados de que não era necessário esperar pelo mestre e assim fomos nos servir. Comida farta e diversa e tão logo nos sentamos o mestre chegou. Pediu que déssemos continuidade pois esperaria a chegada de um filho para o almoço. Ali, depois que terminamos, ele nos ofereceu um doce de bacuri (para variar, um dos símbolos da cidade de Teresina). Vou resumir dizendo que comi e uivei por dentro de tanta felicidade.


O silêncio do mestre era o tom da conversa e raramente ele tomava a iniciativa. Para quebrar um pouco gelo e incluí-lo no monólogo do Padre Alexandre, perguntei a razão do tratamento de "mestre", se seria uma tradição ou se ele também era formador. Respondeu que também era formador e ponto. Não desenvolveu. Falamos a respeito de uma obra e era notório que ele tinha compromissos e que estava com o tempo limitado. Enquanto durava a conversa, chegavam pessoas em diferentes horários para almoçar: parecia um rancho. Jovens, adultos, crianças, uma policial militar e quando já estávamos de saída, a esposa do mestre. Eles explicou que todas as construções do terreno abrigam filhos e netos que moram praticamente em comunidade (no meu entendimento). Também falou que antes de adquirir a propriedade, vivia num cômodo de 4mx4m com a família e afirmou que ao menos os netos tiram bastante proveito de todo aquele ambiente.


Vista da entrada da propriedade com um frondoso pé de babaçu ao fundo.

No carro, a caminho de casa para nos prepararmos para a ida ao centro da cidade, o padre comentou que já vira uma vez o encantamento do Sr. Luiz, o qual incorporava um espírito (não sei se é essa denominação) feminino. Apenas escuto e observo.


Antes de irmos ao centro da cidade, passamos na Casa Frederico Ozanam de repouso e acolhimento para idosos com 60 anos ou mais (em 29 de dezembro de 2023 completarei 60 anos - anotem). O padre iria aproveitar a vacinação contra a gripe e se imunizar. A casa é mantida pelos vicentinos e semanalmente o padre faz visitas e celebra para aqueles que podem e desejam participar da missa. Ele realmente é aquele sujeito que faz o papel da igreja em saída, que vai onde o povo está, atitude que ocupa muito mais os discursos do que as práticas pelo que consigo observar.


A visita demorou mais do que o esperado, ele parecia conhecer a todos. Como era de se esperar dos vicentinos, a casa conta conta com toa a infra-estrutura necessária e acolhe os idosos "de ambos os sexos, independentes ou com diversos graus de dependência. A natureza do acolhimento é provisória e, excepcionalmente, de longa permanência quando esgotadas todas as possibilidades de auto-sustento e convívio com os familiares." Definitivamente eu acho que não estava preparado para aquilo. Vi idosos muito bem dispostos e comunicativos, a maioria aguardando a vacinação. Por outro lado, vi muitos com grandes limitações de mobilidade e outros até com limitações cognitivas e é simplesmente impossível, ao menos para mim, não pensar em qual contexto estarei incluído num futuro que ja não é mais tão distante assim (idosos de 60 anos ou mais). Junte-se a isso o episódio com o filho da Silvinha e foi o bastante para sair dali com a cabeça em movimento como se eu fosse um boneco de Olinda.


Como iríamos ainda na rodoviária para tentar informações sobre a viagem para Nova Russas, a ida ao centro ficaria adiada para um outro momento. Falando em viagens, chegamos a alinhavar uma conversa sobre a possibilidade de irmos a Parnaíba para visitarmos o delta do rio. A viagem seria de carro e com direito a momentos antropológicos - tenho evitado o uso desse termo para não ser leviano, mas como estarei em companhia de um antropólogo, me dei o direito.


Na rodoviária, diante do guichê da empresa que faz o trajeto Teresina-Nova Russas, me deparo com horários não tão abundantes e uma necessidade iminente de decisão. Cerca de uma hora antes eu havia me comunicado com uma das Irmãs Trinitárias que viriam nos próximos dias, a Luisa Torresan, para confirmar a data em que chegariam para que eu pudesse me sincronizar. Elas chegarão no dia 12 de abril, uma terça, e relativamente tarde pois virão de Fortaleza. A linha de ônibus vai nas terças, quintas e domingos e volta nas quartas, sextas e segundas, respectivamente. Refleti intensamente e mesmo sendo a única pessoa no guichê, procurei ser rápido na decisão para não ocupar demasiadamente o gentil e paciente funcionário. Enfim, comprei as passagens para ir no dia 10 e voltar no dia 15 de abril. Uma viagem com duração de 6 horas "mais ou menos".


Por que tanta dúvida? Estamos falando de uma viagem para um lugar onde não conheço ninguém, apesar do padre ter se disposto a procurar algumas indicações clericais, local bastante pequeno e com grandes limitações de acesso rápido, dentro do meu espectro de conhecimento. Meu voo de volta para o Rio será dia 16 de abril na parte da tarde e o retorno de Nova Russas será na véspera. Para um capricorniano convicto como eu, isso é geminiano demais.


Com o avançar da hora, realmente desistimos de ir ao centro e convidei o padre para um café porque a partir das 19 horas ele ia participar de um mutirão de confissões na igreja Nossa Senhora de Fátima na zona leste. Acho que no meu caso eu precisaria de um mutirão de padres para que coubessem tantos pecados.


O café aconteceu numa livraria dentro do shopping Rio Poty que já ficava no caminho da igreja. Um longo café onde mais uma vez aprendi mais um pouco sobre as complexidades das relações humanas, as hierarquias clericais e dos fiéis que pouco diferem no que diz respeito ao desejo de poder e também sobre as angústias do padre que estava mediando um conflito envolvendo invasão em terras indígenas no sul do estado. Ele faz parte do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e acabou sendo envolvido numa complexa trama.


No caminho, um pouco de dúvida no trajeto e aquele descompasso entre dirigir e falar ao mesmo tempo. Será que conseguirei fazer uma viagem até Parnaíba nesse ritmo? Passamos pela ponte estaiada e que parece ter virado marca em grandes cidade. A daqui tem uma torre de observação visitável. Realmente fiquei interessado. Consegui uma foto não muito boa por causa do carro em movimento e da chuva.


No alto, o local para observação.

Como teresina é praticamente plana, a vista é realmente se 360°. Rapidamente chegamos na igreja a partir da ponte e antes das confissões o padre ainda foi participar de uma rápida reunião sobre um grupo que está retomando os trabalhos sobre ecumenismo. Claro que havia um lanche nos esperando e ali descobri que o bolo salgado é preferência por aqui. O bolo doce tal como a gente conhece não parece ser muito apreciado.


Vários padres espalhados na igreja ouvindo as confissões e pessoas aguardando a vez.

Foram quase duas horas onde aproveitei para dar seguimento à leitura do livro Um Passeio Pelo Céu do meu grande amigo Marcelo de Oliveira e Souza. É muito bom ter amigos que escrevem livros. Oportunamente comentarei outros aqui. No final do trabalho do padre, mais lanche. Também não vou comentar.


Um pouco depois do do nosso retorno o Padre Erlan foi buscar um outro padre, seu conterrâneo (Piripiri-PI) e que estava de passagem para ir visitar o pai. Mais um pouco de conversa e finalizamos o dia com a perspectiva da inauguração da Pastoral da Pessoa com Deficiência aqui na Paróquia Nossa Senhora do Carmo. Haverá também uma passeata para a conscientização do autismo. Contaremos com a presença de uma convidada do Padre Alexandre que é bastante engajada, a Marta. Ela é PcD e chegará de Fortaleza especialmente para o evento amanhã cedo.


Os que me conhecem bem devem estar se perguntando sobre esse lado Beato Salú. Não tem nada disso. Tentarei explicar na próxima postagem.








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