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Quando eu saí do armário (5º dia)

5º dia - 02/04/2022

Os que me conhecem mais de perto devem estranhar toda essa conexão com religiosos, igrejas e afins. Vamos colocar as coisas no devido lugar. Minha origem é católica sim e como muitos fiz o tradicional afastamento silencioso. Perceber e reconhecer as atrocidades cometidas pelas religiões realmente me coloca numa posição convictamente subversiva e de grande rejeição aos ritos e tradições. A herança de culpa judaico-cristã nos persegue até os dias de hoje e levei muito tempo para separar o joio do trigo, se é que de fato consegui.


Há tempos aprendi uma lição com um amigo e colega de profissão, o saudoso professor de inglês Max Rosenburst. Nós trabalhávamos juntos na Escola do Cepe em Miguel Pereira-RJ e compartilhávamos dias comuns e até mesmo algumas atividades conjuntas (ele com inglês e eu com física). Sempre conversávamos muito nos intervalos e em todas as oportunidades possíveis. A lição é muito simples: "Professor é aquilo que mais se parece com gente!"


Ela fazia referência aos alunos que eventualmente encontrava fora do contexto escolar e se espantavam ao vê-lo: "Ahhh, o professor no cinema..."; "Olhem, o professor no mercado..." e por aí vai. A máxima no parágrafo anterior era a resposta que ele usava nessas ocasiões. Eu achei simplesmente genial. Ampliei o conceito para os religiosos, os quais inúmeras vezes são tomados como santos, abnegados e infalíveis (talvez a pior das características pois até os santos falharam).


Foi a partir daí que talvez eu tenha começado a humanizar os religiosos e a me permitir uma reaproximação. Definitivamente não me arrependo porque é um campo fértil para se conhecer pessoas extraordinárias e que se parecem com gente! Eu gosto de gente. É justamente assumir este gosto que considero sair do armário. Sei até o dia em que isso aconteceu: dia 20 de maio de 2021 quando o também amigo e professor de química Cristiano, lá do Cefet/RJ Petrópolis, me fez uma observação que levarei para o resto da vida: "Rogério, para ser professor, tem que gostar de gente e, olha isso, você é um cara que gosta de gente." Ele se referia ao ambiente em que estávamos: era mais um almoço em que eu o levava a um dos botecos que frequento em Petrópolis e que simplesmente parecia uma extensão da minha casa pela forma afetiva como éramos tratados. Para os curiosos, me refiro ao Bar do Moacir (Bar São Cristóvão) na Praça Pasteur. A observação do Cristiano ficou ecoando muito tempo na minha cabeça até que numa atitude que me proporcionou grande leveza e alívio eu assumi, sim, eu gosto de gente.


É provável que muito antes de assumir a saída do armário eu tenha me valido de forma inconsciente desse temperamento que me permitiu aproximações e amizades bastante significativas. Com os religiosos não foi diferente. Além do mais, aqueles com os quais mais me identifico são daquela linha da igreja em saída. Não são profissionais executivos da missa embora isso faça parte do cotidiano. São pessoas que, nesta vertente, estabelecem uma rede de confiança e acesso onde atuam que normalmente é extensiva aos que lhes acompanham. Foi graças a isso que consegui fazer minha pesquisa de campo na Amazônia: as Irmãs Trinitárias foram fundamentais para o sucesso da minha inserção no campo. Mais uma vez, graças a esses vínculos, estou aqui vivendo uma experiência única de contemplação e ação num ambiente culturalmente único e que não achamos nos roteiros turísticos.


A caminho da rodoviária para buscar a Marta logo cedo, o Padre Alexandre recebe a notícia do atraso do ônibus. Aproveitamos e paramos numa padaria para um longo café com conversas. Aprendi mais sobre o xadrez da vida clerical e como é difícil, também para os religiosos, o pensamento fora da caixa. Falamos sobre a dificuldade de comunicação quando presumimos que o outro entende exatamente o sentido do que foi falado quando na verdade usamos frases que presumem mas não são completas ou autoconsistentes. Curioso também é que ele nos faz perguntas e depois as repete para outras pessoas, na nossa frente mesmo, para comparar opiniões e assim vai enriquecendo a conversa de todos. Claro que as polêmicas não faltam.

Duas horas depois do esperado, o ônibus chegou e recepcionamos a convidada. A conversa no retorno seguiu pelos rumos da militância, pastorais e perspectivas. Marta é também muito eloquente e engajada com convicções firmes de alguém que aprendeu muito com a vida. Estava mobilizada em processar (ou reclamar formalmente) a empresa de ônibus que a trouxe porque não tinham acessibilidade para que ela chegasse ao segundo andar causando realmente um sério problema de mobilidade.

Ela ficaria hospedada na casa da secretária da paróquia, a Rosália. Chegamos em casa e eu fui dar conta de uns resíduos de trabalho que não me deixam em paz. O almoço seria na casa de um ministro da palavra que morava ali nas proximidades e onde o padre almoçava habitualmente aos sábados.


Meu cantinho de trabalho (nas férias).

O casal que nos recebeu pareceu ter uma boa convivência com o padre mas um mal entendido na comunicação não deixou claro que iríamos e em maior número. A preocupação com a possibilidade de faltar comida (impossível com aquela fartura) tomou conta de parte da conversa. Aliás, o casal já tinha iniciado a comer pois realmente não nos esperavam. Voltamos a um dos temas da conversa no café da manhã: as frases que presumem.


O almoço foi breve por conta dos afazeres do padre e voltei para prosseguir com minhas coisas, lavar roupas e tentar uma hospedagem em Nova Russas-CE. Consegui um hotel bem central (penso que todos são) e uma diária a 50 reais com café da manhã num quarto com ventilador. Os 75 reais do quarto com ar condicionado não me atraíram muito considerando que estamos no período de chuvas. Não demorou e o padre apareceu com a notícia de que tinha conseguido organizar a agenda de modo que seria possível irmos a Parnaíba entre segunda e quarta e melhor, de carro. Será mesmo? Uma viagem de pouco mais de 350 km e mais de 5 horas de conversa onde muitas vezes o carro irá praticamente parar para o padre gesticular em suas falas entusiasmadas. Acho que não vou resistir. Ele também estava vendo a possibilidade de nos hospedarmos em alguma casa de religiosos por lá. No final, será uma viagem antropológica.


Entre trabalhos, escrita e roupa lavada, o dia foi passando e combinamos um lanche para a noite bem perto da casa. Há questões na casa que ainda não comentei. Há 4 cadelas que ficam no terreno atrás que também abriga a lavanderia. São dóceis mas pulam muito e nos sujam com as patas muitas vezes enlameadas por causa das chuvas. Só hoje consegui ir lá fora porque pedi ao Padre Erlan que as prendesse para que eu pudesse usar a máquina de lavar.


Há muitas árvores, pássaros e saguis.

Outra questão é que a porta de acesso à rua bem como os portões são fechados por cadeados. Perco muito tempo tentando encontrar a chave certa e muitas vezes o jeito para virá-la e abrir é dificultado pela localização do cadeado que também tem rebeldia por causa da exposição ao tempo. Sempre que estou agarrado lá fora tentando abrir um dos cadeados malditos, fico imaginando se estivesse caindo um temporal ou coisa pior iminente para acontecer tal que nem mesmo fraldas geriátricas seriam capazes de suportar. Há momentos que os temperos aqui são mais fortes do que consigo metabolizar.


Já eram quase 9 da noite quando o Padre Alexandre, Marta e Rosália passaram por aqui para irmos lanchar. Um local bastante idílico e original onde tivemos mais das boas conversas (algumas politicamente polêmicas) e muitos risos. O fuleiragem (mais uma das qualificações usadas pelo padre) de quem aguardávamos resposta sobre a hospedagem não dava notícias e me adiantei e reservar uma pousada dali mesmo. Quando estiver por lá darei mais detalhes. Recebemos uma resposta positiva no final da noite sobre a hospedagem com os religiosos mas já era tarde e eu tinha efetivado a reserva. Na verdade preferi desse jeito e vocês saberão o porquê pelas fotos.


Boa expectativa para o domingo pois padre me disse que fui convidado pela Rosália para ir na torre de observação da ponte estaiada e depois almoçar num flutuante que fique no encontro dos rios Poty e Parnaíba. Logo, teremos mais fotos!!!

Comentários

  1. Enquanto vc voltou para a igreja católica, eu sai. Somos todos pecadores, nós, os santos, os padres, pastores, umbandistas, toda a humanidade. Se não fossemos qual a razão de Cristo ter se colocado na cruz para remir nossos pecados. Sou salva pela Graça (está escrito na Biblia) e todos os meus pecados são perdoados, basta que me arrependa perante Deus. Então porque vou me confessar com outro pecador? Tenho conversa pra mais de metro pra ter contigo meu amigo. Quando vc voltar vamos colocar um bule de café e trocar uma prosa! Vou te apresentar a minha nova versão. Bjs Ana

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    1. E bota café nisso! "Enquanto vc voltou para a igreja católica..." Me vejo muito mais numa relação de afeto com alguns religiosos.

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    2. E bota café nisso! "Enquanto vc voltou para a igreja católica..." Me vejo muito mais numa relação de afeto com alguns religiosos.

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