Seguidores

Mais um dia em Nova Russas-CE, reflexões e a chegada das Irmãs (15º dia)

15º dia - 12/04/2022

O dia amanheceu com a promessa de calor intenso e talvez chuvas isoladas. A temporada de chuvas em sua etapa final indicava a iminente vinda do tão anunciado verão no segundo semestre. Aí eu saberia o real significado de calor.

Com mais nitidez é possível enxergar a Matriz e a Serra das Almas ao fundo.

Desci para o café e a movimentação já era intensa com hóspedes e equipe do hotel. A Márcia obviamente coordenava as operações. Retornei ao quarto para escrever um pouco de modo a sair próximo do horário do almoço e me expor ao sol e calor o mínimo possível.

Já eram quase 11 da manhã quando tomei coragem de desligar o ar condicionado e sair. Márcia ao telefone na recepção pareceu ter feito um sinal para que eu esperasse. Aguardei no portão de saída e logo ela apareceu e como se tivesse jogado uma rede de pesca me colocou de volta para dentro porque eu não podia sair sem antes fazer toda a resenha do dia anterior. Seu marido trabalha viajando em diferentes cidades e passa sempre alguns períodos ausente. Fiquei imaginado a intensidade das conversas de atualização a cada retorno ao lar.

Ao mesmo tempo que eu contava sobre o dia anterior ela também me falava sobre sua vida, viagens e como conhecia tudo e todos em Nova Russas. Perguntei sobre um lugar para almoçar, preferencialmente self-service e ela não hesitou em indicar a pizzaria La Bella como a melhor opção. Insistiu dizendo que era longe para ir a pé (um pouco mais de 1 km) porque o sol realmente estava triscando. Além do mais seu primo Fabrício estava a caminho para trazer seu celular esquecido em casa. Fabrício, o meu companheiro de bermudas e que me salvou de um constrangimento maior na igreja no dia em que cheguei. Ele viria de moto e até poderia me dar uma carona ao restaurante. Logo ele chegou, Márcia precisou sair e me deixou conversando com seu primo até que ela voltasse com a motocicleta.

Foi nessa tempestade de acontecimentos que Márcia me enrolou e me segurou no hotel até a hora do almoço. A conversa com Fabrício foi boa, ele tem 17 anos e me contou sobre os planos de ir para Niterói-RJ em maio para morar com um irmão e talvez experimentar uma nova vida. Trocamos ideias e contatos e seguimos conectados.

Fui de carona até o restaurante como combinado e a distância realmente pareceu enorme sob aquele sol, mesmo estando de motocicleta. A comida realmente é muito boa e os preços mais do que acessíveis. Acostumado com os preços surreais do sudeste, tudo aqui parece barato. Infelizmente, o preço da cerveja parece ser globalizado. Diante das circunstâncias, nada mais havia a ser feito que não fosse retornar para o hotel. Já era aquele horário de coisas fechadas e poucas pessoas na rua. Eu era uma delas.

Voltando para o hotel após o almoço em minha companhia. Sol a pino.


Desde o dia anterior, durante as caminhadas, eu era levado a reflexões que me causavam até certa emoção. Longe de todos os apelos acelerados e consumistas dos grandes centros urbanos, estava eu novamente frente a uma experiência semelhante ao que vivi na Amazônia. Pessoas existem aqui e muitas delas passariam por toda a sua vida sem deixar esse lugar. Não são menos felizes por isso. Outros, como o Fabrício, querem desbravar o mundo. Eu seria capaz de viver aqui? Ou que tal viver no meu mundo sem me deixar levar pelos apelos intensos e efêmeros que nos roubam a percepção do tempo? Desde que li Sobre sinos e monges: o Tempo, as Horas e o horologium vitae no contemporâneo da amiga Rogéria Bernardes, minha percepção sobre como lidamos com o tempo nunca mais foi a mesma. Estou sempre empenhado em não me deixar levar e ser escravizado pelo tempo parametrizado e que regula nossos hábitos em vez de nós mesmos protagonizarmos a nossa existência. Além do mais, é um privilégio sem precedentes poder interagir com a autora de um livro tão profundo e emblemático.

Nem mesmo o calor absurdamente intenso que me fazia encolher os ombros tirava a alegria daquela caminhada com total presença no momento, no agora. Na verdade, era uma sensação de desbravamento indescritível que embrulhava o estômago de prazer. Não me apressei porque não tinha o relógio opressor determinando meus hábitos. Praticamente não suava, talvez pelo clima relativamente seco naquele período do dia. Ao chegar no hotel não teve jeito. A blusa rapidamente funcionou como uma esponja de suor. Márcia tentou me prender na recepção para mais resenhas mas não conseguiu: fugi para o ar condicionado.

O final da tarde chegou, sol baixo, nebulosidade e uma vontade desesperadora de beber um café fresco. Caminhei até a secretaria da paróquia e Yara me atualizou sobre o horário de chegada das Irmãs, previsto a partir das 20 h (Padre César foi buscá-las no aeroporto de Fortaleza), me indicou uma lanchonete onde eu poderia ter um café fresco e me permitiu a apropriação de algumas balinhas de café que se encontravam sobre o balcão de atendimento. A lanchonete indicada não apresentava sinais de que teria o meu objeto de desejo e resolvi explorar pelas redondezas. Cheguei numa padaria chamada Esquina do Pão e avistei uma pessoa bebendo café com leite numa mesinha na calçada. Meio incrédulo, perguntei pelo café e, sim! Estava fresquinho assim como os pães de queijo. Fiquei meio abestado e pedi uma média e, por insistência da atendente, juntei uma porção de pães de queijo.

Tudo quentinho e fresquinho: mordi um pão de queijo antes da foto.

A supresa veio na hora de pagar. Não é o que estão pensando. Uma média e cinco pães de queijo: R$ 3,00. Vou repetir: 3 reais. Nada mais a declarar a não ser uma foto da praça na frente da padaria e repleta de acácias.

Imagino como deve ser o período de floração.

No caminho de volta ao hotel e pleno de satisfação pelo café de fim de tarde, registrei mais algumas imagens de diferentes pontos da cidade.

Fui me organizar para aguardar a chegada das Irmãs e combinei me encontrar com a Márcia (ela não perderia por nada) um pouco antes das 20 h lá na casa onde iriam residir pois algumas pessoas estariam lá para acolhê-las.

Cheguei umas 19 h 50 min e o grupo de recepção ia aumentando aos poucos. Márcia chegou em seguida e ficamos conversando na varanda. Ele me contou mais sobre sua família, filhos, o cotidiano do trabalho do marido e a vida em Nova Russas. Logo chegou o Padre Donizete contagiando o ambiente com irreverência e descontração.

Exatamente uma hora depois, às 20 h 50 min, o Padre César encostou o carro no portão. As Irmãs Luisa (Trinitária) e Maria do Carmo (Franciscana) chegaram após uma longa viagem. Cumprimentos, bagagens acomodadas, casa mostrada e boas conversas alegraram ainda mais o momento.

No meu lado direito, Irmã Luisa e Irmã Maria do Carmo logo na sua frente.
No meu lado esquerdo, os padres Donizete (barba) e César.
No cantinho direito da foto, de amarelo, Márcia e imediatamente ao seu lado, Yara.

Uma pena para mim porque tive que me despedir e não haveria chance de ficar até sexta-feira como previsto. As Irmãs iam jantar, precisavam descansar e organizar as coisas. Eu teria que levantar de madrugada no dia seguinte. Ganhei carona de motocicleta até o hotel e fiz um lanche na pizzaria que funciona no andar térreo, a mesma que me salvou na chegada no domingo anterior.

Organizei minimamente as coisas e coloquei o despertador para 3 h 30 min da madrugada de modo a ter tempo de fechar a bagagem e caminhar por pouco mais de 10 min até a rodoviária na esperança de que tivesse o ônibus conforme combinado.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas