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Efeito borboleta, Torquato Neto e mercado raiz (12º dia)

12º dia - 09/04/2022

Desde que comecei o diário eu queria compartilhar as escritas com um amigo, o Mauricio, professor de Literatura, grande conhecedor e entusiasta de Machado de Assis. Nos conhecemos há mais de 20 anos e pelas razões que passam na cabeça de um amador na arte de contar aventuras, podem imaginar meu receio em compartilhar. Ontem tomei coragem e enviei para ele o link do blog e, como não seria diferente, dada a fineza do amigo, se alegrou com a minha alegria. Ao longo de um breve e saudoso diálogo por meio de mensagens de texto, ele escreveu:

"Se puder/quiser, informe-me sobre o que há por aí 

concernente ao grande poeta piauiense, Torquato Neto."


Me coloquei a procurar informações e li um pouco sobre a biografia, a vida interrompida precocemente* e guardei vagamente a imagem de seu rosto em algumas fotos que apareceram na internet. Não encontrei nada muito significativo além de informações sobre seu túmulo e um possível espaço no Museu da Imagem e do Som de Teresina cuja inauguração prevista para 29 de março não aconteceu por conta das obras ainda em andamento.

(*) Num relatório do Ministério da Saúde de 2019, o Piauí aparece como terceiro em taxas de suicídio.


Saímos depois do café da manhã e o Padre Alexandre fez um caminho diferente porque ia parar o carro num outro estacionamento, em frente ao palácio do governo estadual e dali seguiríamos por uma parte do centro que ainda não havíamos explorado no outro dia. O filme Efeito Borboleta nos coloca diante de uma reflexão interessante. Normalmente achamos que uma única atitude implicaria em uma única consequência futura. Apesar da ficção do filme, ele nos leva a concluir que mudar uma atitude no passado não nos leva linearmente por outro caminho que, por sua vez nos conduzirá ao que pudéssemos desejar. Pense em qualquer arrependimento: "Ahhh, se eu tivesse terminado a faculdade..." Você não sabe! Se tivesse terminado a faculdade e conseguisse um emprego que te permitisse viajar muito, talvez já tivesse morrido numa queda de avião! É isso que o filme mostra: tenta desconstruir esse pensamento linear e ponto a ponto. E o que isso tem a ver com Torquato Neto?


Mesmo fazendo essa apologia ao não pensamento linear, me permitirei brincar um pouco de efeito borboleta aqui. Fiz contato com o Mauricio que deu uma olhada no blog e viu que eu estava no Piauí e por sua vez falou sobre o Torquato que me mobilizou a pesquisar sobre a vida dele. Quando saí do estacionamento com o Padre Alexandre, nos deparamos, a poucos metros descendo a rua, com um conjunto de bancas de livros antigos. Na passagem, um casal folheava um livro cuja capa vi de soslaio e me veio um flash do rosto do Torquato Neto. Parei e fiquei rodeando o casal na esperança de que largassem o livro para que eu pudesse conferir.


Um pérola: capa dura, papel cuchê e apoio da Prefeitura
de Teresina. O conteúdo dispensa comentários. Ed. 2017.

O vendedor, sensível ao meu estado de angústia, saiu de onde estava, uma rodinha de conversa e, sem que eu dissesse nada, me sinalizou que tinha outro exemplar! Não perdi tempo e adquiri a singela lembrança para o amigo Mauricio que, espero, ao ler este relato, perceba o sabor dessa aventura.

Seguindo, paramos para um café (fresco) numa padaria e continuamos a caminhada pelas ruas do centro e que aparentemente não tem uma política de preservação histórica mais sistemática.

Algumas fachadas seguem parcialmente preservadas.

A cada virada de esquina, surge a visão de uma praça. Chegamos no Mercado da Cidade que fica na beira do rio e de frente para o Maranhão. Na verdade, um grande camelódromo com todo tipo de mercadorias e umas poucas coisas típicas tais como doces e castanhas diversas.

Não era o que eu procurava.

Nos aproximamos da beira porque não era possível apreciar a vista do rio nos andares superiores porque o metrô de superfície, que também não estava em funcionamento, bloqueava a visão.

Com pouquíssimas estações, não me pareceu muito útil.

Na beira do rio Parnaíba foi possível avistar o outro estado e a movimentação local. Consegui flagrar um enorme lagarto que andava por ali. As fotos estão aqui.

Na sequência, atravessamos a rua lateral do camelódromo e encontramos aquilo que chamaríamos de mercado municipal e lá pude ver o que realmente gosto: coisas e comidinhas típicas que não encontramos em shoppings. Há uma sequência de barracas externas e depois encontramos algumas entradas que nos levam a descobertas incríveis, como é possível ver nas fotos.

No caminho para o estacionamento encontrei uma manifestação digna de registro. Por mais linda e autêntica que possa ser, não devemos esquecer que esse gesto se faz necessário por conta de uma genealogia de atos nocivos e preconceituosos contra à população LGBT.

Muito criativo e original.

Pegamos o carro e nos dirigimos a um passeio na zona leste da cidade, considerada a mais abastada apesar de guardar, como é comum nas grandes cidades, alguns bolsões de miséria invisibilizados. Além disso, o padre observou que não era comum ou praticamente inexistente o comércio de ambulantes em sinais bem como a presença de pedintes, algo que se manifestou a partir de 2020. Ele carrega um saquinho com moedas no console do carro e sempre contribui quando é abordado. Outra ocorrência bastante comum na cidade, assim como em outras do país, é a presença de indígenas venezuelanos da etnia Warao. Em geral, mulheres e crianças em situação involuntária de grande vulnerabilidade, provavelmente causada pela invasão de suas terras e outras tantas razões que implicam no fluxo migratório.

Zona Leste com prédios e avenidas que destoam da região mais central.

Seguindo na boa conversa, o padre retomou um tema recorrente que ainda não comentei aqui. Parece que há um complexo de vira-latas meio regional e citava inúmeros exemplos fundamentando seu ponto de vista. O mais recorrente era a indignação de pessoas com as quais comentava sobre minha escolha de vir ao Piauí e mais ainda, quando ele jogava que eu havia trocado Berlim por Teresina (conforme contei num dos episódios anteriores)! De qualquer maneira, se é de fato algo que possa ser generalizado ou não, me senti estimulado a manifestar ainda mais meus agradecimentos por todo carinho e acolhimento que venho recebendo, assim como deixar clara a minha admiração pelas belezas locais.

Almoçamos no caminho para casa e uma longa tarde de calor e letargia precedeu o temporal que veio ao anoitecer. Logo depois, nos encontramos com Rosália e fomos na Pizzaria Diferencial ali nas imediações. Além da pizza divinamente maravilhosa, a imagem a seguir conta um pouquinho do que foi:

Foi de rachar o crânio!


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