Seguidores

De Teresina-PI para Nova Russas-CE: a viagem que quase não aconteceu (13º dia)

13º dia - 10/04/2022

O dia começou com o que pessoas mais supersticiosas chamariam de sinais. Fui escrever um pouco enquanto aguardava o Padre Alexandre para o café. Assim que ele acordou, me mobilizei com a organização do dejejum. Algumas louças na pia que não deveriam estar ali por causa de formigas, baratas e, o gato do vizinho que passa boa parte do tempo rodeando as pessoas pedindo o que comer. Quando se revolta, se revolta. A expressão de sua manifestação foi um farto e pastoso bolo fecal na bancada da pia. Comentários: nenhum. O padre fez a limpeza e desinfetou tudo. Quase não tive estômago para o café da manhã. O Padre Erlan já tinha saído.

Após a partida do Padre Alexandre para as tarefas paroquiais, fui organizando as coisas e me preparando para uma longa viagem. A previsão era algo entre 6 e 7 horas de duração. Depois da minha experiência ano passado numa viagem do Rio de Janeiro para João Pessoa de ônibus, previsão de 36 horas que se transformaram em 48, me organizo de modo a diminuir o metabolismo e funciona super bem. Praticamente jejuo na viagem e assim as demandas diminuem e evito usar o banheiro do ônibus cujas razões não preciso detalhar aqui.

Rosália chegou um pouco antes das 9 da manhã porque o trajeto até a rodoviária era longo. Corri na finalização e 45 minutos depois estávamos nos despedindo. No caminho, um segundo sinal me abalou. Senti algo raríssimo, talvez a terceira vez na vida inteira, um refluxo. Uma dor no meio do peito que me acometeu a primeira vez quando eu estava em Tefé, no meio da Amazônia e vocês podem imaginar o meu pânico presumindo algo mais grave no coração. Na época fui tranquilizado via telefone pelo meu ginecologista (um de meus irmãos mais velhos é médico com essa especialidade e pergunto tudo a ele) e então eu sabia do que se tratava. Foi ficando mais agudo e quando cheguei na rodoviária pensei em desistir da viagem pensando que a coisa podia piorar. Comprei uma garrafa de água com gás e com pequenos goles a coisa foi aliviando e passou.

Me aproximei da plataforma de embarque e a quantidade de gente e crianças e bagagens em grande volume me faziam especular o quão longa seria aquela viagem. Seria outro sinal para desistir? Embarcamos e para a minha surpresa o ônibus saiu praticamente vazio porque boa parte daquelas pessoas iria para outro destino. Fiquei curioso com a quantidade de saquinhos plásticos cuidadosamente colocados atrás de cada assento. Depois da cena da manhã com o gato, não pude pensar coisa menos trágica. Me dei conta depois que eram apenas para que se colocasse o lixo gerado na viagem. A caminho da saída da cidade o ônibus parou na Ladeira do Uruguai, um terminal de ônibus com muitas conexões. Todos aqueles que não embarcaram na rodoviária e mais alguns entraram ali. Ônibus lotado, com grande falatório, crianças jogando em celulares ruidosos e outras situações típicas me espremeram no meu canto. Não, não acabou. Devido a um grande número de paradas para embarque e desembarque, o ônibus conta com o auxílio de um cobrador que também organiza as bagagens no porão do ônibus, pergunta quem vai almoçar na parada - provavelmente para o planejamento do local que não deve ser muito grande. Esta mesma pessoa se dirigiu a mim confirmando a compra da minha passagem de volta para sexta-feira dia 15 de abril. Pois bem, fui informado que não haveria ônibus por causa do feriado e que a passagem foi vendida equivocadamente. Eu teria que trocar. É sério mesmo? Pensei em descer do ônibus ali mesmo e voltar. A viagem não deveria acontecer.

Entre inúmeros raciocínios, ligações para o rapaz que me vendeu a passagem e todos os tipos de pensamentos desorientados com tantas variáveis, optei por retornar à Teresina na quarta de madrugada. Foi a opção menos pior e eu ainda poderia encontrar as Irmãs que chegariam na terça à noite.

Uma viagem de 363 km que ainda teria a volta (Imagem do Google Maps).

O trajeto até Campo Maior não tinha grandes novidades pois era parte do caminho para Parnaíba e a viagem prosseguiu com o entra e sai de passageiros que dependia da densidade populacional de onde passávamos. Me chamou a atenção, umas duas poltronas atrás, um homem que espirrava longamente em momentos alternados. Não sei ao certo qual era o gatilho para o início daquele trágico episódio em tempos ainda pandêmicos. Era algo indescritível mas vou tentar. Pelo timbre, não deveria estar usando máscara e a sequência de espirros com um som saxofônico e entupido, com notas enchuveiradas, deveria estar fazendo a agonia do passageiro vizinho. Eu mesmo me protegia quando era iniciada a trombeta, ainda que sem saber ao certo a distância. O episódio se repetiria várias vezes até Crateús-CE quando o passageiro finalmente nos livrou de sua temida companhia. A parada para o almoço se deu por volta das 13:00 num local chamado Afonso Eurípedes, um pouco menor do que o Bagdá Café. Seria minha única ida ao banheiro, dividida em duas prestações e que me permitiram chegar ao destino sem me preocupar.

A partir do almoço a viagem transcorreu por uma região que, na medida que nos aproximávamos de Castelo do Piauí, as formações rochosas iam adquirido uma característica muito peculiar: há grande abundância de arenito e quartzito dando um lindo toque nas belezas naturais. A cidade também abriga um sítio arqueológico e um cânion do rio Poty. Muitas casas utilizam o quartzito como muros, cercas e outras possibilidades que a imaginação permitir. O cenário foi assim desde Juazeiro do Piauí até praticamente a fronteira com o Ceará.

Muro típico de uma casa em Juazeiro do Piauí.
Depois do almoço ninguém aparece.

Os cajueiros e acácias são bastante comuns em toda a região. Os cajueiros muito presentes nos quintais e as acácias populando as ruas das cidades. No percurso, rebanhos caprinos obrigavam a diminuição da marcha em vários trechos.

Um dos locais de onde são retiradas as pedras, ainda em Juazeiro do Piauí.
Cenário típico na região.

Na região de Nova Olinda, um pouco depois da foto acima, a viagem foi feita praticamente em primeira marcha por conta dos buracos. Foram cerca de 30 minutos sacolejando. Também é notável a ênfase que dão aos pórticos das cidades. Comecei a notar, principalmente em Castelo do Piauí. Passando por Buriti dos Montes vemos as rochas ainda fazendo parte dos cenários que margeiam a estrada.

A divisa entre os estados se dá pela travessia da região da Serra das Almas, um cenário indescritível onde não fui muito feliz com as fotos por estar na lateral menos favorável do ônibus.

Minha versão de foto não muito boa.

Conforme o afastamento, o ângulo ia melhorando e os detalhes diminuindo. É um marco destacado na paisagem avistado de muitos lugares.

Um pouco mais ao longe.

Passamos por Tucuns, um distrito de Crateús e logo estaríamos a pouco mais de 50 km de Nova Russas. Crateús me pareceu uma cidade bonita e organizada, já estava escurecendo e chovia. Não foi possível ver muito do lugar. Houve uma descida em massa de passageiros na rodoviária e sobramos apenas eu e um rapaz que havia embarcado em Teresina também. Trocamos algumas conversas mas a primeira coisa que comentou comigo foi a respeito do sujeito que espirrava compulsivamente no ônibus, daquele jeito que descrevi anteriormente. O trajeto levou cerca de uma hora, desci do ônibus antes da rodoviária para ficar mais próximo do hotel e fui informado que a volta na quarta-feira não seria mais às 5 da manhã mas às 4 h 40 min. Nada a comentar depois de 8 horas de viagem!

Me dirigi ao Hotel Lima a poucas quadras de onde desci e fui me instalar. Não tinha tempo a perder e mesmo em jejum fui até a matriz da igreja me apresentar e explicar o propósito da minha visita.

O lugar estava lotado: domingo de ramos.

A partir de fotos nas redes sociais o Padre Alexandre me ajudou a reconhecer os dois párocos locais pois ele já havia estado com ambos em diferentes ocasiões. Assim, me apresentei a uma pessoa da pastoral do dízimo e que ajudava na organização da entrada dos fiéis e que prontamente insistiu para que eu fosse até a sacristia e falasse com o Padre César antes da missa. Seria o ideal pois assim eu poderia voltar para o hotel, me alimentar, tomar um banho e descansar. Atravessei a igreja coalhada de gente. Todos arrumados para a missa de domingo e, o único sujeito de bermuda era eu. Mais uma vez fiquei imaginando se não seria "barrado" tal como ocorreu lá no IFPI. Obviamente o padre não havia chegado (que dia!) apesar do pouco tempo que faltava para a missa e eu não ia incomodá-lo naquele curto intervalo. Voltei para o meu lugarzinho lá no fundo perto da porta e constatei um rapaz, apenas um, trajando bermuda.

Esperei por quase duas horas até que a longa missa terminasse e pude conversar rapidamente com o padre que me deu algumas indicações, como a localização da residência que seria ocupada pelas Irmãs e da possibilidade de que nos encontrássemos no dia seguinte.

Voltei para o hotel a pouco mais de 600 metros da praça da Matriz e para alentar o longo dia, constatei que no andar térreo do hotel funcionava uma pizzaria. Devorei quase toda uma pizza e finalmente cheguei, de verdade. O quarto do hotel não podia ser melhor, ar condicionado, café da manhã incluso, atendimento pra lá de generoso e atencioso, até ducha higiênica no banheiro e... banho frio! Definitivamente não me acostumo com isso mas já sabemos que é assim em toda a região. Finalmente apaguei.

Comentários

  1. Os sinais do início da viagem não se comparam a riqueza das experiências do caminho e as alegrias da chegada!!!

    ResponderExcluir
  2. 1. O relato do sujeito espirrando… sensacional!!
    2. Banheiro com ducha higiênica. Sofri daqui com você nessa viagem: você merecia esse presente!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. E foi exatamente assim como tudo aconteceu. Que karma!!!

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas