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Em busca do semiárido (1º dia)

1º dia - 29/03/2022


Me encaminho para o Aeroporto Santos Dumont com decolagem prevista para 8h30min com destino à Teresina. Uma conexão em Campinas e depois o voo segue direto. Adoro o Santos Dumont por inúmeras razões, a geografia, acessibilidade e, ultimamente, mais ainda por não termos que vencer verdadeiras gincanas para alcançarmos um portão de embarque, algo que se tornou tão comum em grandes aeroportos que estes até exibem médias horárias de chegadas a portões mais distantes. Acho isso tosco.


Recentemente passei a assumir e a verbalizar o meu medo (pânico mesmo) de viajar de avião. Sim, o transporte mais seguro do mundo e tudo mais que pudermos saber a respeito. O avião não decola com 99% de segurança: ou está tudo 100% ou não tem voo. Se houver falha, na maioria das vezes, será humana. E se for o dia da pessoa falhar???? Hein? Outra coisa, os assentos flutuantes ou coletes salva-vidas, para quê? Quantos pousos na água bem sucedidos? Quando cai, cai mesmo e a antecipação do que estaria por vir parece ser pior do que a fatalidade. Enfim, é isso.


Turbulência logo após a decolagem pontual no Rio de Janeiro, turbulência na chegada à Teresina. A sensação de quem sempre viaja nas últimas poltronas do avião parece ser mais veemente. Viajo sempre por lá mas isso é outra história. Definitivamente eu perco o fôlego nas turbulências por mais que se saiba que um avião não cai por causa disso. São momentos de pânico onde não consigo ter um mínimo de pensamentos leves e racionais que possam me levar a um local seguro e longe dos meus medos.


Chegando em Teresina, terra onde o babaçu abunda - vejam esse cocal.


O aeroporto de Teresina é pequeno e não nos obriga a longas caminhadas. O desembarque é feito na pista e, por um momento, a mesma sensação de quando desembarquei em Tefé-AM pela primeira vez: sim, encolhi os ombros ao receber aquele chuveiro de radiação térmica. Como estava quente apesar do período chuvoso e sim, como chove!


Ahhh, sim, o que vim fazer aqui nas minhas férias? Existir.


Fui recebido no aeroporto pelo amigo Padre Alexandre. Nos conhecemos em setembro de 2017 no Caiambé-AM quando então ele iria iniciar sua missão por lá. Na época eu fazia minha pesquisa de campo para o doutorado. Como padre e antropólogo, a riqueza de suas conversas ajudaram a consolidar mais um daqueles laços indissolúveis e que queremos preservar por toda a vida.


Já há algum tempo em Teresina, gentilmente me acolheu na casa paroquial uma vez que troquei minha viagem para Berlim, onde visitaria o meu filho que há poucos meses se mudou para lá com a esposa, pelo Piauí e alguns toques de sertão cearense. A troca se deu basicamente pelas incertezas ainda geradas pela pandemia e também pelos novos acontecimentos relativos aos conflitos no leste europeu.


O bairro, Santa Maria da Codipi, fica na região norte de Teresina, próximo ao aeroporto e a menos de 2 quilômetros do rio Paranaíba que delimita a divisa com o Maranhão. É muito perto mesmo!

E como chove! Vista da varanda da casa.


Na casa paroquial tive o quarto (suíte) gentilmente cedido pelo Padre Alexandre que se acomodou num outro mais simples. Há uma outra suíte ocupada por outro religioso, o Padre Erlan. Lugar amplo, arejado, muitos livros, mesa para trabalho (estou de “férias”) e… o chuveiro. Ahhh, o chuveiro, frio como sempre nessas bandas de cá e para piorar, um fluxo de água fraquíssimo e característico em todas as torneiras da casa. Faz aumentar o meu sofrimento com banho frio, não importando o calor.


Já eram quase 3 da tarde e havia uma comidinha me esperando apesar de todos já terem almoçado. A casa conta com a ajuda de uma funcionária muitíssimo gentil e atenciosa, a Janaína.


Um pouco depois do almoço fui acompanhar o Padre Alexandre em suas visitas de trabalho numa das paróquias locais, em seguida visita a uma família para finalizarmos com uma missa na qual o acompanhei. Já foi possível perceber em poucas conversas a forma alegre e acolhedora das pessoas por aqui. Tal como senti na Amazônia, sempre interessadas e dispostas a uma boa conversa. Muitos risos e fluidez nos assuntos diversos.


A igreja se resumia a uma tenda montada numa praça/terreno com um pequeno espaço em alvenaria onde se guardavam os objetos ritualísticos. Tão logo começou a missa, como é comum, o padre me pediu que me apresentasse e obviamente fui calorosamente acolhido.


A igreja.

Padre Alexandre celebrando.

Dali partimos para um lanche e, mesmo com a eloquência do Padre Alexandre, pedi licença e desmaiei até o dia seguinte. 




Comentários

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  3. Precisamos de pouco para levar a Palavra de Deus. Achei tão interessante essa igreja dentro de uma tenda. Lembrou-me como iniciou o cristianismo, com Abraão o pai da nação de Israel. Abraão deixou sua terra, sua parentela idolatra e foi por orientação de Deus para o deserto viver em tendas e fazer a Vontade do Pai. Com isso posso afirmar que voce voltou a Gênesis!
    Ana Lucia Telles

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    1. Querida amiga! A sensação é bem essa mesmo. Dentro da simplicidade, toda a profundidade! Saudades de nossos cafés!

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