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Nova Russas-CE: existiria facilmente aqui (14º dia)

14º dia - 11/04/2022

Reconheço que viver a rotina de uma cidade como visitante não se compara ao cotidiano de seus habitantes que estão ali, dependendo das condições disponíveis independente de serem favoráveis escolhas. O viajante tem data de validade e muitas vezes pode prorrogar ou antecipar a partida bem como decidir sobre voltar ou não naquele lugar. Mesmo assim, ouso fazer algumas considerações assertivas sobre Nova Russas levando em conta minhas andanças por aí. Na medida em que vamos ficando mais experientes conseguimos notar características que vão além dos pontos turísticos. A pergunta que sempre me faço é: eu seria capaz de viver aqui? Ainda que retórico, o questionamento me ajuda a ter percepções que andam mais de perto com a existência local.

Amanheceu e parecia que eu estava vendo o ruço em Petrópolis-RJ porque uma névoa cobria a cidade. Subi até a varanda no andar de cima e pude observar melhor.

Vista para a região central.

Uma coisa muito interessante nas regiões com pouco relevo, vegetação baixa e longe dos imensos prédios que não nos permitem olhar livremente para cima, é que podemos nos orientar com grande facilidade em relação aos pontos cardeais. O prédio do hotel parecia estar rigorosamente alinhado de modo que cada uma de suas quatro faces voltava-se para cada um dos pontos cardeais. O meu quarto tinha vista para o Sul. Não havia sol direto na janela em nenhum momento do dia e assim o impacto do calor era amenizado.

Não sei qual a expectativa que se tem quando falo sobre estar no semiárido. Talvez uma visão de grande seca e desolação? Há algumas configurações diferentes e aqui nesta região não se percebe esse tipo de paisagem que infelizmente ainda persiste em alguns pontos. Além do mais, estamos no final do período das chuvas e a vegetação está bem verde. Mesmo com toda a precipitação, o calor não é menos rigoroso e, claro, como sempre me dizem, quente mesmo será no no início do segundo semestre. Socorro!!!

Desci para o café da manhã e usufrui das gostosuras antes que as moscas iniciassem a invasão. Elas são mais intensas no período de chuvas e nem adianta se esconder. Felizmente tudo fica protegido mas na hora de comer temos que ser rápidos. Percebi que alguns hóspedes são frequentes tais como representantes comerciais e outros profissionais que vêm com certa frequência para o trabalho longe de casa. Eram quase 7 da manhã quando vi uma moça muito simpática e articulada dando conta de várias coisas ao mesmo tempo e parecendo estar em todos os lugares. Sim, era a Márcia, a pessoa com quem eu tinha tratado a reserva dias antes por telefone.

Retornei ao quarto, coloquei algumas coisas em dia e me organizei para sair e conhecer a região central da cidade e fazer contato com o pessoal da igreja para que eu tivesse mais detalhes sobre a chegada das religiosas. Eram aguardadas duas Servas da Santíssima Trindade e uma Franciscana. No final, por enquanto, veio uma de cada congregação.

A Márcia, que terminava o atendimento com um hóspede que deixava o hotel, se prontificou a compartilhar algumas informações comigo. Tão logo expliquei o propósito da minha visita, ela sinalizou que sabia da chegada das Irmãs pois escutara na transmissão da missa pela internet. O episódio de encontrar pessoas que sabiam da chegada das religiosas se tornou frequente. Não sei se lembram que no dia anterior, havia apenas um rapaz de bermuda na igreja além de mim. Pois bem, tudo indicava que era o primo da Márcia, o Fabrício. Ela parecia estar conectada com todas as pessoas que eu ia conhecendo. Rapidamente desenvolveu uma conversa cheia de conexões por conta de irmãos que residiam em São Gonçalo-RJ e suas idas e vindas ao Rio de Janeiro, Niterói, etc. Com ajuda de uma foto da cidade colocada na recepção do hotel, Márcia me sinalizou informações importantes sobre as redondezas. Ela também me disse que foi anunciada uma campanha para contribuição de alguns itens faltantes na organização da casa onde iriam residir as Irmãs.

Foto tirada provavelmente por drone.


Curiosamente o hotel ficou fora do campo de visão mas a vista permitia uma noção bastante razoável das cercanias. Havia previsão de chuva para tarde e me apressei em sair para aproveitar o máximo com minhas observações.

Embora não se perceba na imagem anterior, as ruas da cidade na região central (até onde pude caminhar) são constituídas de declives suaves dando uma forma bastante agradável ao cenário geográfico. Para uma cidade com pouco mais de 30 mil habitantes, achei as ruas espaçosas e não percebi tumultos no trânsito. Há muitas motocicletas de baixa cilindrada circulando porque certamente constituem um eficiente meio de transporte: também poupa tempo de exposição ao sol. Notei também que em todas as ruas naquela parte da cidade há casas de todos os tamanhos e possivelmente preços. Não notei áreas privilegiadas e outras menos favorecidas.

Rua lateral na praça da Matriz. Facilmente identificável na foto anterior por causa dos arcos.

Cheguei na secretaria da paróquia e me identifiquei para a funcionária, a Yara, que chamou o Padre César com quem troquei algumas palavras. Ele estava na correria por conta de seus afazeres paroquiais e o Padre Donizete havia saído em visita. Pedi informações sobre como eu poderia colaborar na listinha para a casa das Irmãs e me coloquei a comprar toalhas e roupa de cama. Foi-me recomendado ir numa determinada loja, o Armazém Fortaleza, onde eu encontraria o que precisava. As instruções de como chegar não poderiam ter sido mais fáceis. Claro que eu preferi confiar no GPS para uma caminhada de pouco mais de 3 quadras.

Fui levado a caminhar no sentido oeste, oposto de onde eu deveria ir, atravessei a linha do trem (apenas de carga) e fui seguindo e achando estranho o movimento de pessoas diminuindo cada vez mais. Passei pelo CRAS Rodolfo Filho e fui seguindo as orientações do GPS. Lá pelas tantas vi um casal de idosos sentados na porta de casa vendo aquele pacato mundo passar. Perguntei sobre a tal loja, eles riram e disseram que eu estava longe do meu destino e também me perguntaram, com a certeza da resposta, sobre a minha procedência. Me advertiram que ali era favela, um local perigoso e que eu não deveria prosseguir.

A "favela" segundo a visão daquele casal.

Dialoguei rapidamente explicando que eu era do Rio de Janeiro e que nossas visões a respeito do tema eram diferentes e que ali estava longe de ser um lugar perigoso. Ela insistiu dizendo apenas que aconteciam umas coisas ruins naquele pedaço mas, nem tanto realmente. Agradeci e retornei na tentativa de encontrar a loja que estava literalmente na minha cara lá na região mais central. No caminho registrei algumas imagens do centro incluindo a estação de trem.

Consegui encontrar a loja e obviamente quando o vendedor que se chamava Bruno, que também já morou no Rio de Janeiro, etc., me perguntou qual o propósito da compra, ele também sabia da chegada das religiosas. Calor humano e receptividade não faltavam em cada lugar que eu ia.

Retornei à secretaria da paróquia para entregar minhas contribuições e não tardou para que o Padre Donizete chegasse de sua missão. Fomos apresentados pelo Padre César, que estava numa de suas várias passagens por ali ao longo do dia e, fomos tomar um café na casa paroquial que ficava bem ao lado. A conversa foi muito boa, muitas coisas e lugares em comum, os padres Donizete e Alexandre eram velhos conhecidos e tinham um jeito semelhante de atuar fazendo um trabalho forte em comunidades.

A conversa se alongou e fui convidado para me juntar a eles no almoço porque o Padre César não tardaria a chegar. Mais conversas sobre casos e situações comuns durante a refeição. Também se falou da logística da chegada das Irmãs no dia seguinte, os preparativos na casa e assim por diante.

Passava um pouco das 13 h quando me despedi e rumei para o hotel com o propósito de ligar o ar condicionado e simplesmente não fazer nada porque eu estava a ponto de entrar em combustão espontânea com aquele sol. Eu me sentia um inseto sobre o qual um ser humano apontava uma lente de aumento para concentrar os raios solares. Não foram necessários muitos passos para notar que, além de mim, contei umas quatro ou cinco pessoas na rua. Comércio praticamente fechado com exceção para bancos, supermercados e outras coisas similares. Era algo inacreditável embora previsível considerando o clima. No amazonas não é muito diferente e eu guardava a experiência anterior.

Registrei esta imagem por volta de 13 h 30 min.

Aproveitei e andei por umas ruas, tirei fotos do Parque da Cidade e observei mais detalhes do centro sem a presença de olhares curiosos daqueles que ali habitam e transitam. Fiquei com a impressão de que algumas lojas nem reabriram depois.

No hotel consegui mais algumas fotos sem a névoa da manhã, conheci um sobrinho da Márcia e tratei de me esconder até o calor diminuir ou a chuva chegar ou ambos.

Vista do centro (fundo) a partir da varanda superiorzinhas do hotel.

Antes de subir comentei com a Márcia que havia comprado um xampu porque não conseguia fazer espuma com o sabonete durante o banho. Mais uma vez a ela tinha a resposta: a água altamente salobra do poço do hotel e que estragava quase tudo metálico também não me deixaria produzir a tão desejada espuma.

No final da tarde voltei ao centro, passei pela residência das Irmãs que ficava no caminho e encontrei parte da equipe que estava organizando as coisas por lá, inclusive a Yara. Conheci tudo e achei a casa bem espaçosa e com tempo certamente ficaria de acordo com as necessidades e gostos das religiosas.

Já estava escurecendo, caminhei um pouco pelas ruas do centro, fui no caixa eletrônico e registrei uma ou outra foto.

Por do sol/início da noite na praça da rodoviária.

Eu fui ver exatamente onde era a rodoviária porque na quarta-feira eu deveria estar por lá umas 4 h 30 min da madrugada. Andei um pouco mais de forma aleatória vendo os lugares de lanches, pistas de caminhada e, a cidade aos poucos se recolhendo. Passei mais uma vez pela praça da Matriz e definitivamente fui embora pra o hotel.

Praça da Matriz vista pelos arcos.

No hotel fui presenteado com a sopa preparada pelo Sr. Moura, que fica na cozinha de 18 às 22 h e depois trabalha como vigia noturno dali. Era tudo o que eu precisava para finalizar aquele dia.

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